Matérias Agosto - 2000 |
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Entrevista:
Uma Nutricionista
"No Limite" ....
Nutrinews ouviu Márcia Madeira, nutricionista responsável pela alimentação dos participantes do programa "No Limite", um dos maiores sucessos da rede Globo nos últimos tempos. Baseado no Survivor americano, o programa leva pessoas à um local isolado chamado de "ilha" e submete os participantes a tarefas e situações que pretendem testar a sua resistência física e emocional. Leia a seguir a experiência de Márcia e os desafios que ela teve que enfrentar.
NN- Como surgiu a oportunidade de desenvolver este trabalho junto à Produção do programa "No Limite" ?
Márcia: O diretor do Laboratório Silo, Dr. Alexandre Adler, médico microbiologista, me indicou. Ele conhecia meu trabalho porque há algum tempo atrás eu atuei em sua empresa. Foi uma indicação pessoal dele.
NN - Como você encarou esse desafio ?
Márcia: Numa primeira reunião, o pessoal da Globo me explicou o que seria o programa, o que eles esperavam...
Na versão americana, a alimentação não era muito focalizada porque eles não preparavam nada, deixavam a critério das pessoas que estavam na "ilha". No caso do "No Limite" a produção queria que a alimentação fosse uma dificuldade, mas que eles tivessem uma segurança através da orientação de um profissional .
Quando comecei, o grupo já estava praticamente selecionado, dependendo só de algumas avaliações médicas. Ao fixarem o grupo em 12 pessoas, recebi o perfil psicológico de cada um, o peso, altura, idade e pedi também um recordatório alimentar de 3 dias. Queria ter uma noção do que eles comiam normalmente. Todo o meu trabalho foi teórico, no papel , porque não tive contato direto com os participantes.
Tivemos outras reuniões, onde expliquei o que pretendia fazer. A idéia da restrição calórica brusca foi minha. Meu único receio era o de alguém passar mal. Não pelo que eu estava fazendo, mas por uma série de outros fatores que poderiam interferir.
Através de fitas gravadas pela produção, tinha noção do local onde as pessoas ficariam e sabia das alternativas naturais que eles encontrariam por lá: coco, cactus, peixe...
NN - Qual era a proposta inicial e o que foi modificado durante o desenvolvimento do projeto ?
Márcia: Quando entrei no projeto já existia um roteiro do que eles iriam fazer, onde já estava prevista uma quantidade grande de comida. Então, como a idéia era que a alimentação fosse uma dificuldade, mudei tudo e a produção aceitou minha proposta integralmente. No caso dos prêmios, eu mantive algumas coisas que a produção já tinha comprado, mas reduzi bastante em quantidade.
A idéia, desde o início, era que os grupos participantes recebessem caixas de 3 em 3 dias, prepararadas por mim. Essas caixas teriam uma média de 300 a 400 calorias/dia, por pessoa ( não posso especificar individualmente, porque eles é que faziam a divisão). Além disso, existiam os prêmios.
O programa dura entre 23 e 25 dias e os participantes foram para a "ilha" sem saber o quanto de alimentação receberiam nesse período. Receberam a primeira caixa (com frutos) e depois, na caixa jogada no mar, um kit de sobrevivência para 25 dias. Logo, concluiram que aquilo era tudo o que teriam todos os dias. Inclusive, nestes dias, tivemos dois casos de diarréia porque eles ficaram praticamente 3 dias comendo coco.
Os grupos só foram ter noção que de 3 em 3 dias eles receberiam alimentos, quando receberam a 2a. caixa. Até então, não sabiam como nem quando eles iam receber comida.
Pensei também nas dificuldades que eles enfrentariam. Nas primeiras caixas incluí basicamente frutos, para facilitar o consumo. Sabendo que até o 6o. dia eles não teriam fogo - só se conseguissem fazer - inclui sopa concentrada ( não desidratada, era concentrada e enlatada!) um pedaço de carne seca, um pouco de café e arroz apenas na 2a. caixa, que seria consumida após esse dia.
NN - Então , após a proposta inicial, você foi ajustando conforme as necessidades dos grupos?
Márcia: Sim. Eu tinha todo o script das provas, de tudo o que estaria acontecendo por lá. Aconteceu, por exemplo, de ligarem pra mim e falar: "Márcia, eles estão muito debilitados e amanhã eles vão fazer prova de mar". Outra coisa que aconteceu e as pessoas não sabem: toda vez que eles tinham prova de mar, tinham livre repositor energético antes da prova.
Você pode me perguntar agora: eles tiveram deficiência de proteína? Provavelmente sim. Mas eu me baseei principalmente nos minerais. A proteína não foi coberta de jeito nenhum, mas os minerais foram. Também me preocupei com carbohidrato, principalmente por causa da glicose. Eles receberam mel em saquinhos, bala de gengibre, coisas com sabores estranhos, mas que garantiam a quantidade de glicose necessária.
Tive medo de alguém desmaiar. Mas não houve nada disso. O único problema que houve no início foi com a Ilma que sentiu uma tontura, segundo ela, por falta de sal ( NaCl). Fiz um cálculo e notei que o grupo dela foi o que mais comeu coco. Não era falta de sal, porque só de sódio eles consumiram 4 vezes a recomendação do FDA, através da ingestão da polpa do coco e da água. Então, na realidade, a falta dela era de "sensação de salgado", não de sódio, porque este estava coberto. Aí nota-se como atua o lado psicológico.
NN - Que tipo de pesquisa foi feita para preparar os "cardápios" para os participantes ?
Márcia: Bom, a idéia de servir as coisas diferentes foi minha. Logo de cara, na primeira reunião, como eles queriam que a alimentação fosse uma dificuldade, que chamasse a atenção, eu imaginei oferecer alimentos fora do padrão normal, exóticos.
Tinha pensado também numa outra proposta, mas que não deu pra fazer. Como sou da área de tecnologia, imaginei em servir coisas de cores diferentes como um arroz azul, por exemplo e, mexer com o lado de análise sensorial. Como eu estudo muito o mercado de alimentos, fiquei interessada em incluir um produto fora do padrão. Mas não tive como realizar isso.
Sendo assim, me fixei nos produtos exóticos. Fui pesquisar em feiras e mercados e daí foram surgindo as idéias.
NN -A questão da alimentação foi bastante explorada pela mídia e também a perda de peso dos participantes num período muito curto de tempo. Fale um pouco sobre isso.
Márcia: Desde o início, toda a idéia de alimentação tinha a questão comportamental. E isso era proposital. Por exemplo: a primeira caixa, continha frutas exóticas, ou seja, frutas que a maior parte das pessoas não conhece. physalis, rambutam, melão andino, atemóia, mangostim, jambo rosa, enfim... Minha intenção era ver a reação dos participantes diante de alimentos que eles não conheciam.
Na 2a. caixa só trabalhei com sabores estranhos, ruins até. Ela continha bala de gengibre e própolis, tamarindo, soja texturizada , entre outros. Para cobrir um pouco da carência de proteína, eles tiveram soja texturizada. A vantagem deste produto é que eles poderiam comer cru se eles quizessem, apesar do aspecto não ser muito bom. Depois do fogo, poderiam prepara-lo na sopa ou na água, cozinhando. Com esta caixa nossa intenção era testar sabores diferentes.
Já na 3a. caixa coloquei cenoura, beterraba e batata, sendo que a cenoura e a beterraba eram com rama. Eu queria avaliar se o grupo ia comer a folhagem, porque a ela daria sensação de saciedade pra eles. Só um grupo comeu. Com esta caixa, eu queria ver se eles iam aproveitar as ramas e nem todos comeram ou aproveitaram na sopa.
Eles tinham também, no kit de sobrevivencia ( a caixa do mar), 6 latas de base para sopa suficientes para alimentar todos durante 25 dias. Nunca pensei que eles não diluiriam a sopa. Eles abriram a lata e comeram a sopa em pasta sem diluir!
Depois as caixas ficaram normais, levando basicamente frutas e legumes. Além disso, existiam os prêmios, que eram quantificados também. Só que nem sempre era o mesmo grupo que ganhava. Esses prêmios eram biscoitos, pão, queijo, frangos e peixe.
Mesmo com a saída dos participantes a ração foi mantida porque, a produção tinha o meu cálculo, a caixa era preparada de acordo com o número de participantes, por exemplo a 3a caixa para 3, 4 ou 5 pessoas, continuando com uma ração individual média de 300 calorias.
A redução do número de participantes só é vantajosa em relação aos prêmios. Se o grupo hoje tem 3 pessoas e ganhou dois frangos, sorte dele.
NN - Muito se comentou sobre a perda de peso dos participantes num período muito curto de tempo. Fale um pouco sobre isso?
Márcia: Com o que vi e estimei, os participantes ingeriram uma média entre 800 e 900 calorias/dia, que é super razoável, embora eles tenham tido um gasto enorme em atividade física. Por isso também a perda de peso. O programa não é em tempo real. A cada 3 dias sai uma pessoa. O Amendoim, em 6 dias perdeu 9 quilos. O Marcus, em 9 dias perdeu 7 quilos. É o que eu tenho exato. E o Chico perdeu 5 quilos.
A partir do 6o. dia da competição notei que eles estavam ficando muito debilitados, mas muito mais em função do stress do que por questões alimentares. Isso me impressionou muito.
A psicóloga que acompanhou o grupo, Denise Werneck fez comentários que realmente achei muito interessantes. No caso do Wanderson, que passou um episódio inteiro chorando dizendo estar fome, a psicóloga explicou que ele lembrava do passado, a fase que ele tinha passado fome mesmo. Hoje ele é bailarino, professor... mas aquela situação fez com que ele resgatasse muita coisa ruim da sua infância. Achei interessante essa colocacão, porque não era pra ele estar descontrolado daquele jeito. Embora eu acredite que ele tenha perdido massa muscular... de todos ele era o que tinha o menor teor de gordura no organismo.
Todos achavam que ia ser uma grande brincadeira, mas não foi. A Globo levou a sério mesmo. É lógico que havia toda a segurança para ninguém morrer no meio do caminho, com médicos, psicóloga, e muitos outros profissionais envolvidos.
Eu trabalhei mais em contato com a psicóloga. Inclusive estamos no site do "No Limite" onde há uma página só sobre a dieta, com comentários a cada episódio.
O grupo menor, no dia em que ganhou como prêmio o frango, chegou a 1200 calorias por pessoa.. É certo que foi um dia só...mas, em média, foram 800 a 900 calorias por dia, por pessoa.
O exercício físico foi muito intenso, eles tinham tarefas todos os dias e algumas eram pesadas como enfrentar o mar aberto e voltar. Todo dia, subiam e desciam dunas, porque os acampamentos ficavam longe do rio e do lugar que iam pegar coco. Mesmo sem provas, o gasto energético era grande. Estou estimando que a Elaine vai perder 25 quilos. Ela iniciou o programa com 101 kg.
NN - Vocês fizeram ou estão fazendo um acompanhamento posterior?
Márcia: O maior problema no retorno era volume. Para evitar isso, cada pessoa que saía ficava dois dias sob controle. Nesses período a alimentação era constituida apenas de líquidos e comida pastosa. Depois, a manutenção era por conta de cada um deles, preparei uma pasta, com a indicação de cardápios básicos para seguirem no retorno à vida normal.
NN - Em um dos episódios da série "No Limite", os participantes tinham que comer olhos de cabra. (Arghhh!!). Como foi essa escolha ? Havia riscos ?
Márcia: O olho de cabra não foi idéia minha. A idéia era, nessa prova, causar nojo mesmo. No Survivor americano eles também tinham uma prova de comida exótica, bizarra, como foi a matéria ontem (20/08) do Fantástico. A produção queria insetos vivos. Só que aqui no Brasil a gente não tem este tipo de produto à venda. Não dá nem para comprar num laboratório, estéril, porque aí entrava a questão de segurança alimentar.
NN- Pensando na segurança alimentar, quanto ao preparo, armazenamento e manipulação dos alimentos, como foi que vocês fizeram para servir o olho de cabra? Não havia muito risco?
Márcia: Para mandarmos este material e servir lá, contamos com o trabalho da Bioquality Rio, uma empresa especializada que fez análise microbiológica de tudo que se viu lá. Do olho de cabra, do miolo de bode, ouriço...
Houve todo um cuidado com a questão da segurança alimentar. Para se ter uma idéia, no caso do olho de cabra, como ele seria servido cru, foi feita uma análise microbiologica prévia. A Bioquality Rio também mandou uma nutricionista até o local, acompanhando o transporte do produto congelado, devidamente sanitizado e controlando a temperatura. Para servir, ele foi disposto num recipiente com gelo. E a nutricionista Angela Avelar permaneceu lá, tomando conta de tudo, tendo todo um cuidado com a segurança alimentar. Isso eu achei admirável na emissora.
Caso houvesse algum problema - é lógico, sempre existe risco, não existe risco zero - havia no local o apoio da equipe de resgate, com médico, médico de plantão 24 horas. Então, não fiquei preocupada. Se algo acontecesse, a pessoa seria retirada e atendida, da mesma forma que foi feito com os outros problemas: corte, tombo e a própria diarréia.
NN- O programa alcançou altos índices de audiência e você acabou se destacando como "a nutricionista malvada". Como isso afetou a sua vida pessoal e profissional ?
Márcia: É uma coisa de louco, acho que eles não imaginaram o vulto que o programa ia tomar, 54 pontos no IBOPE. Eu também não imaginei que fosse ser tão procurada. Me disseram: " Olha, você se prepara, porque será muito procurada pela imprensa", mas não pensei que fosse assim.
Nem tudo são flores. Enquanto está saindo matéria do que está acontecendo, tudo bem. Mas quando começam a te pixar, em cadeia nacional, também não é legal.
NN- Você faz consultoria na área de restaurantes, aulas,... fale um pouco da sua experiência profissional
Márcia: Fiz especialização em nutrição experimental e mestrado em Ciência e Tecnologia de Alimentos. Dei aula de tecnologia de alimentos e leciono hoje, na pós-graduação, Alimentos Funcionais, que está muito ligado à tecnologia. Minha experiência em consultoria em restaurantes comerciais começou há 7 anos e com o aumento no ultimo ano estou abrindo uma empresa.
NN- Quais são seus projetos futuros?
Márcia: Dois livros. O primeiro para leigos, em co-autoria com o professor Roberto Costa, que deve sair antes do final do programa e irá se chamar "Dieta e exercícios, um diário prático".
O segundo, um livro técnico na área de restaurantes comerciais. Hoje, a maior parte dos restaurantes com mais de uma unidade tem uma cozinha central, que precisa de tecnologia para funcionar bem. O livro tratará sobre este tema.
NN -Neste mês onde comemoramos o Dia do Nutricionista, qual a mensagem que você gostaria de passar para seus colegas.
Márcia: A mensagem que gostaria de passar é para que eles não tenham receio de aceitar grandes projetos ou projetos diferentes, e que acreditem em seu potencial. Que tenham consciência que estes projetos terão sempre o lado positivo e o negativo.
É importante estar embasado e preparado para as criticas, porque estas sempre virão. Alguns colegas irão criticar, por questões filosóficas, de linha de pensamento, outros porque gostariam de estar no seu lugar. Aí é uma questão de cada um.
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