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Orgânicos: Ecologicamente SaudáveisProdutos Orgânicos: Saudáveis e ecologicamente corretos
Cresce o consumo de orgânicos numa sociedade preocupada com a qualidade da alimentação e em preservar a natureza.
A alimentação humana ganhou, no último século, inúmeros aliados que contribuíram para melhorar a qualidade de alguns alimentos ou para permitir sua produção em grande escala. Descobertas científicas e novas tecnologias trouxeram novidades, algumas seguras e benéficas, outras questionadas quanto aos seus efeitos para a saúde e para o meio ambiente.
Nesse quadro, a agricultura, a pecuária e a avicultura passam por um momento em que se faz necessária uma reflexão séria sobre suas técnicas e métodos. O uso constante de agrotóxicos nas lavouras, e substâncias reguladoras do crescimento das espécies, tais como hormônios, aditivos e ração animal utilizadas nas criações estão favorecendo o surgimento de inúmeras doenças, além de esgotar o solo e poluir águas.
Um movimento contrário a essa prática vem crescendo significativamente e conquistando produtores e consumidores no mundo todo – trata-se da produção de alimentos orgânicos, que dispensam todos os recursos químicos no plantio e na criação de animais e aves.
Os resíduos de pesticidas, herbicidas ou fungicidas tóxicos e fertilizantes artificiais utilizados na agricultura convencional ficam nos alimentos e além de alterar o sabor causam uma série de doenças. A Academia Americana de Ciências publicou um relatório, em 1987, onde calculou que os pesticidas são responsáveis por inúmeros novos tipos de câncer. Grupos ambientalistas alertam que crianças são mais vulneráveis e que algumas delas já recebem na infância a dose máxima de 8 pesticidas, o que seria o aceitável para uma vida inteira.
Na realidade, a agricultura moderna ou convencional enfrenta uma séria crise, incluindo problemas com meio ambiente, porque seus métodos apontam para uma forte degradação dos recursos naturais. Hoje, a erosão dos solos, contaminações com biocidas e fertilizantes sintéticos, com infiltração desses agentes em lençóis freáticos e córregos de água, e a eliminação da biodiversidade, são fatores que fazem as entidades ambientalistas sinalizarem para os graves riscos dessas técnicas para o futuro do planeta.
Vários estudos indicam que, próximo ao ano 2020, a população mundial contará com cerca de 8 bilhões de habitantes, que necessitarão de recursos naturais preservados para garantir sua alimentação. De olho nesse futuro próximo, a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento publicou, em 1987, o famoso relatório Bruntland que propunha um desenvolvimento sustentável como uma solução possível para os complexos problemas existentes entre ambiente e produção. O mesmo princípio norteou a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO-92.
Portanto, a humanidade está vivendo um momento decisivo, em que todas as alternativas que promovam a fertilidade duradoura dos solos devem ser consideradas.
Nesse cenário, o alimento orgânico ganha cada vez mais terreno, com métodos e critérios que talvez sejam os mais antigos da história do homem – o uso apenas de recursos naturais na produção. Dizer que a técnica é antiga não significa que ignore todo conhecimento acumulado na área, neste último século, ou que dispense novas descobertas científicas. A questão é uma mudança de foco das pesquisas, que dentro da produção orgânica, devem buscar soluções para os problemas que surgem, através dos meios disponíveis na natureza.
Mais qualidade de vida
Na agricultura, principalmente, os benefícios do cultivo orgânico aumenta a qualidade de vida do trabalhador do campo. São inúmeros os relatos de agricultores que sentiram melhora significativa na saúde, quando trocaram a técnica convencional pela natural. Muitos comentam que nunca mais tiveram as dores de cabeça e tonturas, que eram constantes quando usavam agrotóxicos.
Recentemente, uma figura conhecida nos meios artísticos, Leandro, da dupla sertaneja Leandro e Leonardo, faleceu vítima de um tipo de câncer comum entre trabalhadores rurais. Foi bastante divulgado que uma das possíveis causa da doença era a exposição a agrotóxicos para extermínio de pragas, no período em que o artista trabalhou em plantações de tomate.
A agricultura orgânica usa receitas caseiras para combater as pragas, com componentes naturais como algumas ervas e óleos. O custo desses preparados de grande eficiência prática chega a ser 95% menor do que um produto químico, uma economia considerável para o produtor. Nos canaviais, por exemplo, pragas e ervas daninhas são combatidas com técnicas alternativas, como plantio de leguminosas nas entrelinhas da cana. Para eliminação de alguns insetos prejudiciais à plantação são utilizados predadores naturais.
Os adubos também são naturais e produzidos, na maior parte dos casos, na própria fazenda. O programa de adubação baseia-se no retorno ao solo do estrume animal e outros restos orgânicos, processados através de compostagem.
Essas técnicas, somadas à rotatividade e ao consórcio no plantio, colaboram para renovar a terra e resultam na preservação da fertilidade do solo a longo prazo.
A busca por maior qualidade de vida associada à preocupação crescente com as questões ecológicas têm motivado um número cada vez maior de produtores e consumidores a aderirem aos orgânicos como uma alternativa segura. Os recentes problemas de contaminação de rebanhos europeus (doença da vaca louca) serviram para demonstrar a importância dos processos criteriosos da produção orgânica, já que uma das prováveis causas da doença é a utilização de ração animal contaminada.
Diante desses eventos, houve uma verdadeira corrida aos supermercados de produtos orgânicos, no continente europeu. Em alguns países, a venda de carne nesses estabelecimentos cresceu 25% e as redes de supermercados tradicionais passaram a criar grandes seções de orgânicos para atender novos consumidores.
Porém, mesmo sem a ocorrência de escândalos pecuários como esses, o crescimento de consumo de orgânicos vem acontecendo expressivamente, desde a década de 80. Para se ter uma idéia, na Europa, em 1987, eram 250 mil hectares ocupados com esse tipo de cultura contra 2,5 milhões de hectares hoje. Os Estados Unidos possuem 900 mil hectares destinados aos orgânicos; a Argentina, 300 e o Brasil ainda conta apenas com 100 mil hectares, dos quais 80% tem sua produção exportada.
Os orgânicos têm se revelado um excelente negócio atualmente. Seu consumo mundial cresce cerca de 25% ao ano, e representa US$ 8,7 bilhões no comércio internacional.
Certificação
Entidades e associações, que certificam produtos orgânicos no Brasil, atendem produtores que pretendem adotar a agricultura natural. As mudanças e o tratamento necessário do solo são fatores que exigem investimento e tempo do produtor, que pode esperar anos, dependendo do estado da terra.
Todas essas providências são indispensáveis para que o produto seja o certificado como "orgânico". O IBD – Instituto Biodinâmico, órgão certificador brasileiro, com sede em Botucatu (SP), obteve credenciamento do Mercado Comum Europeu, o que faz com que os produtos com selo de aprovação do IBD sejam aceitos em toda a Europa.
O processo de embalagem dos alimentos também obedece padrões rigorosos: o empacotamento deve ser feito em áreas onde haja somente orgânicos, para evitar contaminação com produtos químicos até chegar ao consumidor final. A criação de animais e aves, assim como a produção de ovos, nos preceitos das técnicas orgânicas, ainda é pequena no Brasil e todo o processo desenvolvido por criadores também deve ser certificado por uma entidade reconhecida.
Ainda é pouco comum o consumidor encontrar em supermercados e outros pontos de venda, esse tipo de produto. Frangos e ovos orgânicos estão aparecendo, recentemente, em alguns estabelecimentos.
A recuperação da terra, custos com certificação e demais investimentos necessários para a produção de alimentos orgânicos acabam por interferir no preço final do produto, que chega a ser de 40% a 150% mais caros do que seus similares. Porém, outros fatores ocasionam esses preços, tais como o superfaturamento de preços por parte de estabelecimentos comerciais e a descoberta das tecnologias e dos sistemas de produção pelos agricultores.
No Brasil, já existem alguns núcleos que reúnem produtores orgânicos. Na região de Colombo(PR), a exemplo do que já acontece no Parque da Água Branca, em São Paulo, os agricultores começam a se organizar para vender o produto direto ao consumidor.
As classe média e média alta são as que mais procuram por esse alimento, colaborando com 30% de aumento anual no consumo de orgânicos. Alguns supermercados já possuem seções dedicadas especialmente a eles. Boa parte das pessoas têm consciência das vantagens dos orgânicos, porém os preços altos ainda impedem que o aumento de consumo seja maior.
Produção em larga escala
Algumas empresas brasileiras iniciaram a fabricação de produtos orgânicos, como a Univalem que processa o açúcar orgânico Zucc e exporta para a Europa, Estados Unidos e Ásia. Atualmente, a empresa parte para investir em uma linha maior de produtos do gênero, criou a EcoLínea, marca certificada pelo IBD e licenciada pela organização não-governamental Greenpeace, e passou a comercializar, no início deste ano, sucos, café, vinagre balsâmico, azeite de oliva, garapa em caixinha e geléias.
Outras empresas já exportam sua produção. A Usina São Francisco, fabricante do açúcar orgânico Native, deve lançar em breve, sua marca de café. A usina, que também planta soja, exportou toda sua primeira colheita de 140 toneladas do grão no ano passado.
O caminho da exportação desses produtos deve render muito para os produtores brasileiros perceberem a importância desse setor da economia. Afinal, não se pode ignorar um mercado crescendo cerca de 25% ao ano e com venda garantida da produção.
Clara Korukian Freiberg, professora de Nutrição e consultora técnica da Gelberg Indústria de Alimentos, que estuda, pesquisa e tem trabalhos sobre produtos orgânicos, acredita que a divulgação do assunto é fundamental. "Na Europa e América do Norte, os alimentos orgânicos estão em evidência e cerca de 40% das principais redes de supermercados já comercializam esses produtos. No Brasil, apesar desta tendência de consumo ser relativamente nova, o mercado está em franca expansão. Cada vez mais, os consumidores brasileiros estão atentos às opções de alimentação saudável e produzida de maneira consciente. Essa mudança que começa a ocorrer com o consumidor no Brasil, faz com que a produção de orgânicos deixe de ser voltada apenas à exportação e chegue com força ao mercado interno. Este é o sinal de que um Brasil mais conscientizado está surgindo e aposta na atividade econômica responsável e não predatória, a preservação da natureza também passou a ser fundamental", explica ela.
Preservação de substâncias
Em Chicago (EUA), durante dois anos, foram adquiridos em pontos de venda trigo, maçãs, batatas, pêras e milho doce produzidos de maneira orgânica e convencional. O conteúdo em minerais desses alimentos foi analisado durante todo esse período.
Nas amostragens, os níveis de minerais essenciais foram muito mais altos nos alimentos orgânicos do que nos convencionais. Apresentando 62% mais cálcio, 78% mais cromo, 73% mais ferro, 118% mais magnésio, 178% mais molibdênio, 91% mais fósforo, 125% mais potássio, 60% mais zinco e 29% menos mercúrio.
A gastronomia agradece
Muitos chefs de cozinha têm buscado nos orgânicos o sabor perdido nos alimentos da agricultura tradicional. Os resíduos de pesticidas acabam por interferir no gosto original dos produtos, e a sutileza de sabores é fundamental para a arte da cozinha.
Essa diferença existe e, em alguns casos é extremamente perceptível. Quem ainda não reparou no gosto "sem graça" de certos morangos colocados, recentemente, no mercado? Ou na goiaba, que não tem mais o tradicional bicho, mas possui um sabor "aguado"?
Pensando nessas diferenças, algumas empresas internacionais estão investindo em melhorar seus serviços, investindo na alimentação orgânica – é o caso da Swissair, que no último ano, introduziu alimentos orgânicos em seu serviço de bordo.
O Gate Gourmet, companhia da SAIrGroup e principal fornecedora do catering da Swissair, em parceria com os chefs Roland Jöri e Wolfgang Kuchler, criou um cardápio com refeições sofisticadas dentro do conceito "natural gourmet"’.
Astros nacionais e internacionais aderem aos orgânicos
Integrantes de diversos setores da sociedade têm aderido aos produtos naturais e alguns artistas levantam a bandeira a favor da produção orgânica. Paul McCartney, há muito tempo divulga que só admite esse tipo de alimento em sua casa e nas cozinhas montadas para sua equipe mais próxima, durante as turnês.
Paul Newman possui uma indústria de alimentos, a Newman Own, dedicada à produção de biscoito, cereais e guloseimas orgânicas. Todo o açúcar utilizado para fabricar esses alimentos é de origem brasileira.
Aqui, no Brasil, um ator também adere aos orgânicos – trata-se de Marcos Palmeira, que resolveu investir em uma fazenda, onde usa somente técnicas naturais na agricultura e para cuidar dos animais.
"Sempre fui ligado em qualidade de vida e gosto de atividades ligadas à terra; meu avô tinha uma fazenda no sul da Bahia. São fatores que talvez tenham me encaminhado para entrar nesse tipo de negócio" comenta ele.
O ator procurou informações sobre o assunto junto ao IBD e foi orientado quanto aos procedimentos corretos. "Começamos pelos fundos, organizamos o lixo, vimos tudo o que poderia ser reciclado e aproveitado na fazenda", explica Palmeira. "O uso de defensivos foi suspenso quatro anos antes de iniciar o plantio, seis meses antes de começar a produção e plantamos pasto conforme orientação de técnicos".
Hoje, Palmeira abastece com hortaliças uma rede de supermercados no Rio de Janeiro, além de fornecer produtos orgânicos para alguns buffets e restaurantes. Porém, existe um objetivo maior para essas terras, a Fazenda Vale das Palmeiras, será uma das primeiras fazendas biodinâmicas do Brasil, um local que será auto-suficiente, onde técnicas e métodos naturais empregados na agricultura e na criação de animais completam um ciclo de interdependência, de forma que tudo o que seja necessário para a produção é encontrado dentro das próprias terras.
Para chegar a esse ponto são necessários anos de preparação, os animais que já existem no local são tratados com homeopatia, um conceito harmônico com os objetivos da biodinâmica, e segundo o ator é necessário olhar a natureza e aprender com ela que tudo tem seu tempo. "Para que a Fazenda Vale das Palmeiras se transforme em uma unidade biodinâmica ainda são necessários, aproximadamente, cinco anos de trabalho" , conclui.