Matérias Jul/98

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FOODSERVICE
Na Rota do Crescimento

Desde a implantação do Plano Real, que trouxe a estabilização da economia e impulsionou o consumo, cerca de 15 milhões de consumidores, principalmente os de baixa renda, foram incorporados ao mercado. Com isso, houve um grande impulso dos alimentos industrializados, o que favoreceu o desenvolvimento de um outro segmento importante da alimentação: o mercado de refeições fora do lar, também conhecido como foodservice.
Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentação (Abia), nos últimos três anos esse segmento registrou crescimento de 53,7% no Brasil, chegando perto da média européia, de acordo com a qual, a cada sete refeições cinco são realizadas fora de casa.
Nos Estados Unidos, o foodservice atinge quase 60% da população que se alimenta fora do lar. No Brasil, esse mercado representa 24% do consumo de alimentos com um faturamento de US$ 13 bilhões e grandes expectativas de crescimento para os próximos anos.
O fato é que principalmente nos grandes centros urbanos, as pessoas estão mudando hábitos de consumo, ou seja, em função da utilização das novas tecnologias dsiponíveis no mercado de alimentação profissional, hoje, comer em casa não é tão mais barato do que se alimentar fora do lar.
Além disso, no contexto da globalização, o desenvolvimento do Mercosul, que possibilitou maior entrada do investidor externo no Brasil, favoreceu a expansão desse setor que transformou-se num mercado emergente de consumo e que vem mantendo-se sintonizado com a tendência de modernização que impõe um novo perfil para a economia brasileira.
Na verdade, o negócio foodservice gera hoje milhões de dólares em todo o mundo e continua demonstrando atrativo potencial de desenvolvimento. Justamente por isso tem sido o alvo de investimentos por parte de diversos setores.
A indústria de alimentos, por exemplo, tem focalizado suas atenções nesse mercado. Conforme explicou Denis Ribeiro, coordenador do Departamento Econômico da Abia, esse crescimento do mercado de foodservice é uma conseqüên-cia das transformações da economia brasileira. "Hoje, a economia ficou mais ágil e cobra-se produtividade dentro e fora das empresas, bem como o desenvolvimento de produtos melhores a preços competitivos. O consumidor também passou a ter mais acesso a informações, tornando-se mais exigente e esclarecido. Com isso, na área de alimentos as pessoas passaram a buscar praticidade e menor custo nas refeições, obrigando as indústrias a atenderem essa nova demanda", explica Ribeiro.


Confiança e otimismo

A indústria de alimentação vem crescendo de forma significativa em relação ao próprio PIB nacional, registrando índices de 11,9% nos últimos três anos.
Nesse mesmo período, a produção física de alimentos aumentou 17,9%, com faturamento, em 1997, de US$ 71,5 bilhões, dos quais US$ 63,6% para a área de alimentos e US$ 7,9 bilhões para bebidas.
Segundo Ribeiro, neste ano, em função da retração da economia com um todo, ocasionada por diversos fatores, o fechamento do período deve gerar números de crescimento bem inferiores para a indústria de alimentos. Entretanto, o setor está confiante e espera que o Governo reverta esse quadro.
"À medida em que o Governo voltar a aquecer a economia, realizando as reformas tributárias, que até agora são responsáveis pelo grande atraso do País e, conseqüentemente, pelos altos índices de desemprego, teremos a volta dos consumidores aos pontos de alimentação e um crescimento ainda maior do foodservice e de produtos prontos, que também estarão estimulando ainda mais as vendas de aparelhos eletrodomésticos, os quais vêm batendo recordes nos últimos anos", comenta Ribeiro.
Do ponto de vista do coordenador, o foodservice é um mercado que tende a crescer inclusive geograficamente consolidando-se também em centros menores. Segundo ele, nos grandes centros urbanos as pessoas já realizam pelo menos uma refeição fora do lar.
Graças a isso, a área de restauração comercial no Brasil vem apresentando desempenho significativo. Segundo levantamento feito em 1996 pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes Diferenciados (Abredi), o setor de bares e restaurantes já era considerado o mais numeroso em termos de empresas e empresários, além de ser o maior empregador do País. Considerando bares, restaurantes, fastfood, restaurantes de cozinha internacional, casas de shows e recreação, cantinas de colégios, restaurantes de hotéis e outros, existem hoje 756 mil estabelecimentos que empregam, em média, 3,024 milhões de funcionários e 1,512 milhões de empresários. Além disso, geram investimento de US$ 22,680 milhões (média de US$ 30 mil por estabelecimento), US$ 7,560 milhões de faturamento mensal (média de US$ 10 mil/estabelecimento) e US$ 1,890 milhão de impostos, taxas e encargos recolhidos por mês (cerca de 25% do total).


Crescimento sustentado

Acompanhando o crescimento demográfico do País, esse setor cresce cerca de 10% a 20%, conforme conjuntura econômica. Segundo o presidente da Abredi, Percival Maricato, atualmente, em função da retração da economia, o segmento de bares e restaurantes está sofrendo com a falta de clientela decorrente da baixa do poder aquisitivo da população. Ele ainda citou como dificuldade o excesso de tributos e leis que, aliados ao Custo-Brasil, oneram o segmento.
Esse setor também é responsável por um volume grande de refeições fornecidas fora do lar. Em termos de repre-sentatividade dos pontos de vendas os restaurantes "puros" têm 5%, fastfood 1%, cantinas 2% e restaurantes de cozinha internacional 1%, totalizando 9%.
"Considerando que cada um desses estabelecimentos serve cerca de 50 refeições/dia, chegamos ao total de 3,402 milhões de refeições/dia ou 102,650 milhões de refeições/mês", esclarece Mari-cato. Vale lembrar que desse cálculo estão excluídos, entre outros, os restaurantes de hotéis, cantinas de colégios, lojas de conveniência e padarias.
De acordo com Maricato, se cada estabelecimento do setor, em todas as suas áreas, tiver uma média de freqüência de 50 pessoas/dia, chega-se a 3,780 milhões de usuários/dia ou 113,400 milhões de usuários/mês. Quanto ao perfil desse público, o presidente acredita que todas as classes sociais são atingidas e que cada estabelecimento tem seu público-alvo.


Evento para food-service

Diante de números tão expressivos não é à toa que a indústria de alimentos, que compreende hoje cerca de 38 mil estabelecimentos processadores, esteja bastante interessada nesse mercado. Tanto que a Abia estará realizando, entre os dias 18 e 21 de agosto, no Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo, a ABIA'98 - Salão Internacional das Indústrias de Alimentação, cujo foco será o mercado de foodservice.
"O objetivo do evento é estar aproximando os proces-sadores desse setor, que abriga os segmentos de refeições coletivas, restaurantes comerciais, hotéis, lanchonetes, bares, catering, fastfood, sorveterias, docerias, lojas de conveniência, mercearias, panificadoras, churrascarias e outros. Nossa intenção é mostrar aos representantes do foodservice que a indústria de alimentos está preocupada com suas necessidades, procurando oferecer praticidade, agilidade e qualidade", destaca Ribeiro.
De acordo com ele, a Abia acredita no sucesso da Feira, pois além de apresentar produtos que integram o conceito de qualidade e praticidade, irá difundir mais informações sobre o mercado de foodservice, mostrando o potencial do Brasil nesse setor que aumenta sua importância não somente na área de alimentos, ocupando um espaço cada vez mais representativo junto às indústrias alimentícias, mas também nas demais áreas que integram essa cadeia.


A febre do "branding"

Não há como negar que a evolução do mercado de foodservice está sendo evidenciada em todos os segmentos que o compõe. Apesar da retração do nível de emprego e, conseqüentemente, do número de refeições servidas em restaurantes industriais, a área de restauração industrial também é um segmento muito importante dentro do foodservice que vem buscando a modernização e absorvendo novos conceitos em tempos de globalização.
Como revelou Rogério da Costa Vieira, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Refeições Coletivas (Aberc), o setor é reponsável pelo fornecimento de 790 milhões de refeições/ano que gera faturamento de R$ 2,2 bilhões/ano. O número de usuários do sistema também é bastante expressivo: 3,5 milhões/dia.
Adaptando-se a uma nova realidade econômica que favoreceu parcerias, fusões e aquisições de empresas, o setor de refeições coletivas vive um momento de alta competitividade, a partir do qual, para superar as expectativas dos clien-tes, as empresas estão procurando cada vez mais a diferenciação, através da busca de inovações.
Segundo o presidente da Aberc, hoje a grande tendência do setor é o "branding". Trata-se de um conceito que surgiu nos Estados Unidos e Europa há mais de 20 anos e começa a consolidar-se também no Brasil, constituindo-se numa grande inovação, pois permite uma passarela do conceito de restauração de coletividade convencional para a restauração de coletividade moderna. Como explicou Vieira, o conceito "bran-ding" nada mais é do que explorar dentro do restaurante industrial marcas (produtos, sistemas etc) já conhecidas na restauração comercial e com todas as características desse setor.
"Para que deixar o comensal se alimentar num restaurante fora da empresa, se podemos trazê-lo para dentro da empresa. Por termos um contrato com o cliente, temos uma base instalada e, portanto, um ponto de venda que deve ser explorado através de novos conceitos, criando um elo de ligação entre o restaurante industrial convencional e os modernos conceitos de restauração comercial, explorando as marcas comerciais e o que tem por trás delas. Com isso, a tendência mostra que será cada vez mais difícil distinguir o que é para restaurantes comerciais, restaurantes de coletividades e domicílio", explica.
De acordo com ele, a Aberc, enquanto associação, tem por missão impulsionar as novas tendências do setor e fomentar essa visão que, segundo ele, deve estar consolidada no Brasil dentro de quatro anos.


Grande desenvolvimento

Quanto à implantação na prática desse conceito, o presidente lembrou que os restaurantes industriais têm algumas vantagens sobre os comerciais. De acordo com Vieira, os índices de fechamento dos estabelecimentos industriais são bem menores, o que permite a adoção de novos conceitos.
Além disso, o segmento de refeições coletivas vem crescendo e conquistando credibilidade. Vieira revelou que a terceirização ganha mais espaço nas empresas, atingindo hoje 20% do mercado, um índice ainda relativamente baixo para o Brasil.
"Porém, há um crescimento global do setor e outras empresas estão buscando a terceirização na área de alimentos, como hospitais, escolas, penitenciárias e outras, o que mostra a existência de um mercado a ser explorado", declara.
O presidente acredita que à medida em que a febre do "branding" atingir sua consolidação, o setor de refeições coletivas irá conhecer grande desenvolvimento. Para este ano, a Aberc prevê crescimento de 10% a 12% para o segmento.
De acordo com ele, o setor de refeições coletivas vem passando por grandes transformações. Hoje, o foco é o comensal que tornou-se mais exigente e crítico com tudo o que se refere a serviços. Outro grande posicio-namento do segmento é a valorização máxima do elemento humano, pois as empresas sabem que quem faz o sucesso do serviço são os colaboradores. Por isso, as empresas estão investindo no desenvolvimento profissional e pessoal de seus funcionários. Além disso, o setor também está mais sintonizado com as tendências e novas tecnologias, procurando acompanhar como os movimentos que hoje já são realidade lá fora estarão sendo aplicados no Brasil.


Valorização da atividade

Outro aspecto importante que vem merecendo atenção do setor são os movimentos para valorização das atividades que vão ser a base de desenvolvimento das pequenas e médias. Por último, as empresas têm mostrado maior atenção aos rumos do mercado, ficando atentas à entrada de grupos internacionais, o que também é uma tendência no Brasil, visando melhorar sua com-peti-tividade e aumentar a pro-fis-sionalização do segmento.
"O mercado de restauração de coletividades passa por várias ondas. Hoje, a onda está associada à qualidade. Não a qualidade intrínseca, pois essa já estamos conseguindo com a implantação da ISO 9000, mas sim a qualidade percebida pelo consumidor que quer inovação e um serviço criativo. A intenção é acabar com a formalidade do restaurante industrial, criando um ambiente mais des-con-traído, reunindo características que trazem maior liberdade e prazer aos comensais, bem como implantando novidades em serviços que atraiam os usuários, estimulando-os a consumir os produtos. Na verdade, o grande esforço é pela busca da inovação", acrescenta o presidente.
Portanto, na virada do século, o mercado de foodservice ganha um perfil mais moderno e mostra-se como um importante canal de consumo e distribuição de produtos e serviços, figurando entre os setores de maior crescimento nos últimos anos e que tem influenciado fortemente o desenvolvimento do mercado de alimentação no Brasil.
Fontes consultadas:
Abredi: fone (011) 867-0867
Aberc: fone (011) 572-9070
ABIA: fone (011) 816-5733



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