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Por Vitor Bertini

Ouvir os espelhos, como ensinam as fábulas, pode não ser uma experiência muito agradável. O Brasil, em função da proximidade da Copa do Mundo, tem sido exposto a ler mais opiniões sobre si próprio do que estamos acostumados. A revista francesa France Football publicou recentemente um caderno de 12 páginas pouco elogiosas sobre o Brasil. Já a FIFA, essa controversa senhora, acaba de retirar de seu site uma matéria um tanto crítica sobre nossos hábitos e costumes, em uma espécie de concessão ao “politicamente correto”.

vitorAlgumas publicações cometem erros de avaliação (a FIFA flagrantemente exagerou nos benefícios e na popularidade do açaí), outras, erros de ênfase. Invariavelmente, porém, as publicações provocam uma certa concordância bem humorada e um auto-reconhecimento de nossas dificuldades ou características. Entretanto, reforçando outra peculiaridade nossa, quase nenhuma reação mudancista é sentida em qualquer dimensão de nossa sociedade. “Somos assim, é verdade, que coisa né? E vamos em frente…” parece ser a reação mais frequente.

A revista holandesa 90 Minutes, entretanto, aborda uma questão interessante e pouco comentada. Diz a matéria, em uma tradução livre: “apesar de o Brasil ser o maior produtor mundial de café, não espere encontrar com facilidade um bom cafezinho”. Vai adiante o texto e afirma, demonstrando alguma surpresa, que o café muito frequentemente é colocado em garrafas térmicas e lá permanece até o seu consumo total, independente do número de horas transcorridas desde sua extração. Novamente, não me parece que eles estejam errados ou cometendo alguma grande injustiça. Esse é o foco desse texto.

Maior produtor mundial de café há 150 anos, hoje somos também o segundo maior mercado consumidor. A própria história econômica do Brasil se confunde com a história e com os ciclos econômicos do café. Esses fatos induzem à expectativa, por parte de quem nos observa de fora, de que por aqui se encontre grandes cafés sendo servidos em quase qualquer lugar. E, sabemos bem, infelizmente, não é assim. Mesmo bons restaurantes ainda servem um café “matador” ao término do jantar. Realmente matador, do jantar!

Assim, ao contrário do vinho, onde a proximidade com os vinhedos costuma ser indicador de qualidade, o café, quando torrado, parece requerer uma viagem intercontinental para ganhar qualidade e preço no Brasil.

Nesse ponto, a tentação é escrever uma louvação às qualidades de nosso café. Seu aroma, sabor  e circunstâncias pessoais estão presentes em belas lembranças de cada um de nós. Essa tarefa, todavia, tem uma enorme chance de fazer brotar, ainda uma vez mais, frases como as ”e vamos em frente” acima mencionada.

Como então desmentir o espelho que, teimosamente, insiste em nos dizer verdades não muito agradáveis sobre nosso hábitos relacionados ao café? Sem mais concessões, o ponto é seu valor econômico.

Poucos setores oferecem tão prontas as condições para agregar valor à cadeia produtiva. Diga-se, a bem da verdade, que quem já vem fazendo esse trabalho de aumento da qualidade do café e de seus serviços – e temos vários e belos exemplos, não está nem um pouco arrependido. Ao contrário, está ganhando dinheiro.

Generosamente associado às nossas melhores tradições e expectativas, o café é um ativo nacional para além do papel importante que ele desempenha, como commodity, em nossa pauta de exportações.

Agregar qualidade ao produto torrado, investir em marcas, investir em serviços de qualidade, associar nosso café com suas belas características intrínsecas de ser agregador e confortador, estimulante do corpo e acalentador da alma, cosmopolita e adulto. Enfim, criar uma estética do café do Brasil, e vendê-la. Esse é o caminho para conviver melhor com espelhos e suas verdades.

Vitor Bertini é especialista em tomar café e diretor do Lombas, e-commerce especialmente desenvolvido para os amantes da bebida.

 

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